sexta-feira, 15 de julho de 2011

Por um momento

Relutando abriu os olhos, o sol invadira o quarto completamente, deixando os vestígios da madrugada a mostra. Ana sentou-se na cama e pôs-se a pensar, sua cabeça fora presenteada por um turbilhão de pensamentos que se misturavam sem que ela pudesse amenizá-los. Arrastando-se saiu da cama e dirigiu-se ao pequeno banheiro de azulejos azuis, olhou-se no espelho sem dar-se conta da hora. Lavou o rosto na esperança de limpar a ressaca, buscando sua dignidade, escovou os dente. Foi para a cozinha.
Pegou o velho bule, colocou água para ferver e ficou sentada olhando-o, observando a água evaporar. Lembrou-se de toda a sua infância e riu ao lembrar das coisas que considerara problemas na adolescência, terminou seu chá, tomou-o, pegou um calçado e saiu sem rumo.
Os velhos fones sempre pendurados no ouvido, fazendo-a ignorar toda a cidade, andou sem rumo por horas, observando as pessoas e como cada uma tinha uma vida própria, problemas próprios, histórias próprias, sentiu-se tentada a parar uma delas e perguntar-lhe o que fazer. Detestava conversar sobre si com velhos amigos, sabia que esses sempre lembrariam-se do que ela dissesse e não queria isso, gostava de conversar com pessoas novas, essas, de fora, seriam mais capacitadas a ajudá-la.
Como em um ato de desespero, sentou-se ao lado de um rapaz, sabia que esse era pouco mais velho que ela e sentia um desejo incontrolável de questioná-lo sobre a vida. Notou seus olhos examinando-a e não temeu, abriu o seu sorriso mais fracassado e perguntou-lhe seu nome. Era Renato. O rapaz de olhos escuros e cabelos bagunçados chamava-se Renato. Ana sorria por dentro ao ouvir seu pensamento pronunciar tal nome.
Como quem não quer nada, Ana questionou-lhe sobre o amor, Renato discorreu sobre o porque não acreditava e pegou-se contando suas desilusões amorosas, Ana sorria. Sentindo a necessidade de dar-lhe apoio contara sobre suas recordações mais tristes, aquelas que ela havia guardado em um caixa empoeirada no fundo do seu coração.
Renato olhava-a de forma curiosa e sentia vontade de beijá-la, havia algo naquela desconhecida que lhe atraia, talvez o cabelo ruivo, talvez os olhos tristonhos, talvez a pele sedosa. Ana sentia-se igualmente atraída. Sem por que, sem razão, ambos tocaram-se, e, quando deram-se conta, estavam num desses motéis de beira de estrada absorvendo um a essência do outro, sem questionar-se nada, pois ali, por um momento, nada mais importava.

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